terça-feira, 2 de junho de 2009

Por quanto tempo esperar Raquel?




Uma passagem do Velho Testamento, eternizada pelo verso forte de Camões, tem muito a dizer-nos em termos de investir na carreira profissional. Trata-se da história de Jacob, que prestou 7 anos de serviços a Labão, como pastor, para fazer jus à mão da sua bela filha Raquel. Acontece que Labão, após os 7 anos, em vez de dar a mão de Raquel ao pastor, deu-lhe a mão de Lia sua irmã. Ele então começou a trabalhar mais sete anos, para ter a mão da pretendida. Afinal, era por causa dela que servia a Labão como pastor.Digamos que em caso de paixão romântica sete anos e mais sete não são nada. Até porque a paixão cega tira a pessoa do melhor juízo - a realização, nesse caso, não vem pelos caminhos da razão. Porém, prestar serviços a Labão por sete anos, não receber a recompensa prometida e aceitar mais sete anos de serviço pode ser um erro trágico quando se trata da carreira executiva. Nessa área, paixão cega e ilusão não levam às melhores opções profissionais. Muitos executivos cometem o erro de iludir-se e esperar eternamente. Acreditando em promessas, inebriados pela visão fantasiosa da bela Raquel, que aqui representa a ilusão de um novo cargo ou promoção prometidos, o profissional acaba por desviar-se de seus objetivos, vindo a arrepender-se depois. Acreditar, com sensatez.
Nem sempre uma empresa ou o diretor consegue oferecer ao profissional uma condição boa dentro do tempo ideal. As dificuldades da economia, as agruras do mercado, problemas internos mais prementes eventualmente fazem com que não haja condições efetivas de atender expectativas de um profissional. Igualmente as fusões e incorporações provocam mudanças no quadro de poder. Dificilmente alguém pode garantir algo com absoluta segurança a um profissional nos dias de hoje. Assim, é legítimo postergar a realização, prometer e solicitar um pouco de paciência da parte dele, para que todos - ele, a empresa, o chefe - acabem atingindo suas metas. Acreditar, então, é sensato - é investir na empresa e em seu potencial.Entretanto, a crença tem limite. Se a promessa não é cumprida e surgem justificativas e mais justificativas, é bom acender o sinal de alerta. Será que devo efetivamente continuar acreditando? Essa pergunta, o profissional sensato faz a si mesmo, mas faz também a seu chefe e a colegas sensatos que possam ajudá-lo a ver a situação pela perspectiva certa.Muitas vezes quem está envolvido torna-se um pastor Jacob capaz de apostar mais sete anos, o que eventualmente não será uma boa idéia.É sempre bom:· Investir na própria carreira, gerenciá-la de modo proativo. Ela é responsabilidade do profissional, o próprio interessado, e sua condução não pode ficar à mercê da decisão de terceiros.· Não acreditar em promessas evasivas, vagas, inseguras - busque respostas mais concretas e firmes;· Não ficar eternamente acreditando em empresa ou o chefe que fica sempre pedindo mais tempo;· Não ficar sempre adiando as decisões de carreira para o próximo ano, o próximo período, a próxima oportunidade incerta;· Adotar uma postura realista e sensata: acreditar, sim, com base em evidências sustentáveis e não apenas pela ilusão.Quando buscar a mudança. Perder o timing na carreira é muito ruim. Assim, é bom acompanhar com atenção os resultados da própria carreira, avaliá-la e pedir que amigos sensatos o façam também. É fundamental identificar quando é hora de bater asas.Em geral a mudança é recomendada quando: Você já esperou demais e não recebeu o prêmio certo, mas apenas novas promessas, vagas e incertas. Comece a fazer o currículo e vá à luta. Surge uma oportunidade do mercado e você já esperou suficiente na empresa, que de momento não tem nada melhor a oferecer.· Nessa situação, seja realista e não deixe a boa oportunidade passar.· Há sinais de que a empresa quer efetivamente você na posição em que está. Para ela (ou para o chefe) não interessa que você mude.· Há outros pretendentes à promoção, provavelmente mais promovíveis que você e você já foi preterido outras vezes. Não se esqueça nunca de que o fator humano, que inclui preferências pessoais, é sempre decisivo nessas questões e que mesmo sendo o melhor candidato a promoção, você pode não ser o escolhido.Eis a hora de exercitar uma das qualidades fundamentais para a evolução na carreira: a coragem. Aceite o risco, meça-o bem, tome as precauções necessárias e vá em frente, acredite em você e no seu potencial.Voltando a Camões, será que Jacob estava servindo pelos olhos verdes do chefe? Lógico que não. Ele servia porque pretendia receber como prêmio a bela Raquel. Eis os versos que ensinam: "Sete anos de pastor Jacob servia Labão, pai de Raquel, serrana bela;mas não servia ao pai, servia a ela,Que a ela só por prêmio pretendia."Os dias na esperança de um só dia passava, contentando-se com vê-la:porém o pai, usando de cautela,em lugar de Raquel lhe deu a Lia."Vendo o triste pastor que com enganos assim lhe era negada a sua pastora, como se a não tivera merecida,"Começou a servir outros sete anos,Dizendo: Mais servira, se não foraPara tão longo amor tão curta a vida."

Por *Ricardo de Almeida Prado Xavier, administrador de empresas, é presidente da Manager Assessoria em Recursos Humanos.

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